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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Soneto Unigato

(Foto retirada do Adobe Stock)


 
Retirar em si mesmo a inspiração,
Tua verdade, o poder de ler mentes!
- E ser, depois d’algum miado, canção,
Notas guiadas que são clarividentes!...

E da yoga, que venha a meditação,
Enquanto ensina e escuta aos clientes,
Ronrona nas pausas, desenha a ação
- Mediará a própria vida complacente.

Então fico pensativa: ele existe?
Sei que com ele não há ser triste
Qualquer que pereça d’algum tédio.

Risadas e livros brotam d’ alma,
E o felino mágico nos acalma
- Deve ser esse o teu mais doce remédio?

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

As quatro danças

Dança 1

Eu, que mal dançava sozinha,
Aprendia que a espera
Taria outros braços.
Foram dois - e seus pares.
O primeiro mentiu,
Inspirou-se,
Foi-se.
O segundo a ouviu,
Inspirou-se,
Foi-se.
Reflexos platônicos,
Mentiras azuis que sugaram
As histórias que precisavam
Para a criação de novos passos.
Depois do livro pronto,
Derrubaram-me do palco.

Dança 2

Em outro ritmo,
Ela perdeu o ato,
Ele perdeu o átrio,
Quando viu seu ânimo.

Entre vergonhas,
Entre planos,
Nenhuma fronha
Escondia os danos.

Ele gritou e culpou,
Eu decidi esperar,
Flor sem pétalas - grito
Já não mais quero dançar.

Dança 3

Novos passos - e muitos
Suor na medida - e quentes
Passos claros - e noite escura
Muito quentes, escura noite...

O par dorme - e some
Não tem hora - e ruma
Chega o carro - e parte
Some, ruma e a parte.

Dança 4

Pareciam em sintonia...
Dançavam sob olhares,
Sobre o cheiro da comida
Que era um alimentar da alma.

O outro não mais (a)parecia...
Dançava em outro estado,
Pós apocalipse no peito,
Já almejava outra canção.

Eu queria retornar...
O cheiro dele era paz,
Eu era guerra, era quebra,
Era a verdade que ninguém queria.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Meia jarra

Foto retirada do acervo do Depositphotos

A jarra encheu vagarosamente,
Respingos inevitáveis na roupa,
Desejos que saltam da bocarra,
Choramingo a sua frente...
Não, não beba desse modo,
Não ouça o tilintar do copo,
Não deixa secar sua marra,
Não tente forçar a barra...
A jarra já está sem coragem,
Despede-se da vida cheia,
Gelo é apenas miragem,
Aquece-se e desnorteia...
Meio é um meio certo,
Assim como o talvez tem vez,
Na hora do conserto
Da alça já em sua viuvez...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Perguntas e respostas, ou sobre a dialética da teima

Perguntou se havia amor nas asas,
Sorrindo torto e com olhar reto.
Respondi com olhar torto e sorriso reto
Que as asas estavam em meu amor.

Alcancei algumas estrelas d'um céu,
Sem endereço, sem retorno.
Enquanto ficou na rua de pedras,
Com nomes, com duas vias.

Gritou por mim em seu infinito,
Respondi que não voltava ao fim.
Chorei por decolar sem ar,
Riu por ficar e respirar.

Para escutar:


terça-feira, 25 de julho de 2017

Deu bandeira...

Paraty/RJ - meu clique (2017)
Apresentou o impossível:
Seus olhos disseram,
Dissecaram a derme,
Qualquer coisa, qualquer fato - era mais um retrato!...

O dinheiro apareceu,
A pobreza destacada -
Era sopa de pedras preciosas,
Qualquer pedra, qualquer perda - era mais um retrato!...

Bandeiras presas no fio voaram,
As cores presas ao peso,
Do fio, do arame, no poste,
Qualquer cola, qualquer fita - era um retrato que não colava!...

domingo, 16 de julho de 2017

D'um dia real

(Meu clique)
Na sua mão uma flor tinha
E nas dela, unhas mal pintadas,
Que por instantes detinham
Impulsos que mal se tocavam...

Essa flor que não aparece
Era um momento perfeito:
Para ela, novo sol resplandece;
E para ele, fixação em aspeitos...

Diziam que vence quem se atreve,
Já estavam em nova segurança,
Quando o pulsar se teve,
Nas mãos corriam possanças...

E o desejo que lhes tomava
Não era apenas brisa passageira.
Ao ouvir o que o coração mandava,
A noite chegava faceira...

Caminharam pela cidade,
Sem temer que novo dia viesse.
Pensavam que tal felicidade,
Nem a distância desfizesse!...

E assim acabou um dia real,
As dúvidas, já não eram
E o sorriso - prova cabal
De que outros dias consideram...


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Aroma amoroso

(foto do meu acervo)

Sinto um novo aroma,
N'alma atinge o perfume
Que no Coliseu, em Roma,
Digladiam antigos costumes...

Pele odorífera que me atordoa
E meu pensamento conflitante:
Desconhece o novo pulsar,
A presença d'um amor militante...

As narinas vibram, viciadas,
Só querem mais uma dose.
As tremedeiras evidenciadas,
Quente suor em mim escorre...

Desfaço-me em pétalas,
Enquanto o cheiro permanece,
Correndo por entre as frestas,
Em meus dedos, não fenece...

Sinto um novo aroma,
A cobrir-me de êxtase,
A escrever axioma,
A beijar com ênfase...

domingo, 9 de julho de 2017

Ele parou o carro ao lado do monstro...

E encontrando monstro horrendo,
fostes logo perguntando:
- O que há de matar primeiro,
a saudade ou seu assombro exitando?
Criatura tenebrosa, mal sussurra a resposta:
"Saudade não mata, apenas aparta a briga,
razão e sentimento. Faço, então, uma proposta,
o que teu peito abriga? Sobrevive se decifras..."
Não sabias o que responder, nem ser
o que deveria ser o que em si carregava.
Negavas e queria ao desumano maldizer,
adiava o inevitável que aos seus olhos fumegava...
Assobiava canção repleta de dignidade,
o monstro o encarou de alto a baixo
decidiu largá-lo a sua própria sorte,
já que a saudade era seu pior fracasso.

terça-feira, 4 de julho de 2017

A incerteza das horas coloridas...

Quadro "A Pátria" (1919), de Pedro Bruno (retirado de: http://www.museus.gov.br)

Sabe-se que no universo dos pintores,
ora com tinta e sem pincel,
ora com pincel e sem tinta,
ora apenas oram,
para que o quadro
repare
e pare
horas...

As artes criam prêmios leais,
nem sempre o vencedor ganha,
nem sempre perde a prenda.
Perdem-se valores do passado,
perdurando a eternidade
da terna idade
que é impressa
sem pressa
no certificado,
certo?

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Uma hora de batalha íntima

Imagem retirada do acervo Getty Images.

Embora meu inimigo não vencesse,
Deixou antes a prévia derrota,
Que na vitória eu me perdesse
E na perda, a esperança remota.
Não consenti uma morte há tempos,
Fiz do amor espada inquieta,
Hoje agonizo, além tormentos,
O toque já não é mais extrema meta.

Então deito em áureo leito,
Onde pensamentos incertos são,
Reavendo estranhos conceitos,
A vitória fulgura só na imaginação.
Estas duras vontades, adversárias
De inquietações, por si mostravam
Que, desde o início haviam várias,
E não partiam quem as alimentavam.

Então derrubo, lança e espada,
Concluo que quem vence, antes sua
E até mesmo ao passar estacada,
Já estava em uma morte crua.
Luto comigo, socorrer-me não queria
Por não causar bem, sei bem que erro
Do coração dado arrependia,
Minhas dores combatia a fogo e ferro!...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O voo da coruja

Foto pessoal da minha coleção (e amor) de/por corujas

Ela voou, voou...
Para lá que eu vou?
Não, não sabe-se onde pousará agora...

Clarividente da noite,
a lua como guardiã defronte,
ondas a cintilar o breu lá fora...

Tente não segui-la, não ouvi-la voar...
O canto é dor, desamor no chirriar!...
Talvez os us e us são monossílabas d'outrora...

Regressará à Atena, volta em inspiração,
dorme satisfeita, presa na própria audição...
É preciso deixá-la ir embora.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Ele e a máquina de escrever

(Imagem retirada do acervo: Getty Images)


São poucas teclas,
Não, poucas sílabas...
Há um medo intermitente,
Há uma febre que oscila...

Em seus dedos há um peso,
Sobretudo, anula...
Não há como apagar tudo,
A máquina desdenha...

O que tecla é leve,
Mas as teclas pesam...
Sente dores, palpitações,
Tictic, tictic, tictic, plim...

Lido: se futuro presente,
Enquanto martela, flutua...
O papel acaba, sílabas também,
Precisa de ar, sai sem a máquina...

O cilindro gira, nova folha,
A ausência não impede...
Alavanca de entrelinha,
Folha voa, ganha vida...




segunda-feira, 17 de abril de 2017

Germanices equatoriais

 Para O Equador das Coisas

Entre sombras e mares,
Avante, adiante,
Tão somente seguir...
Toma-nos ares...
O velejar, tal constante
 - Em dez anos a sorrir...

Não há como dizer,
Aquilo que não tem razão...
Todas as cores beijam em tom de azul,
Palavras que dançam em solidão
 - E ganham a amplidão do verbete nu...

As distâncias dos polos inexistem,
No peito do poeta o magnetismo é um...
A poesia é perpendicular,
Certeira ao lugar-incomum...

Entre estorvos e (re)começos,
Da inação à Comunicação,
Agracia-nos com essências...
Uma a uma que abraçam e pingam... coram ação...



* Poema em homenagem aos dez anos do blog "O Equador das Coisas" - o presente ganhamos a cada postagem!...

domingo, 2 de abril de 2017

Colombina de asfalto


... Eu que sempre preferi Pierrot,
Notei-me roubada,
O Arlequim me furtou!

As lágrimas negras escorrem,
Antes de tocar o chão,
Nas estrelas morrem...

No asfalto quente um palhaço dorme,
Uma escrava chora,
Um ladrão corre...

O primeiro semáforo nos congela,
O conto vira riso,
Tudo termina em novela!...

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A canção que não canto

Não sei cantar, mas minha alma insiste...
O ré desafinado é a dó do meu peito,
que pula sem ritmo e destoa em lágrimas...
A brisa nos fios rebeldes lembram o palco,
então a voz amarrada ecoa,
quase uma microfonia...
As letras emergem, microfones,
que talvez precisem de tomadas,
ou serem tomadas em versos...
Canto o que nem sempre meus lábios falam...
Canto alegrias e tristezas que me alimentam...
que fazem de mim quem sou...
Disritmias alavancam minha coragem...
Não é resiliência... são aulas de canto!